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Cães hipoalergênicos: com novos testes, ciência tenta reduzir alergias a partir da genética

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Escrito por Caroline Pasternack

17 SET 2026 - 09H00

Por muito tempo, a ideia de um cão “hipoalergênico” esteve associada a características como menor queda de pelos. Raças como poodle, labradoodle e cães de pelo encaracolado passaram a ser procuradas por pessoas com alergias, sob a expectativa de que provocarem menos reações, mas a ciência já mostrou que a relação não é tão simples. Entretanto, uma nova pesquisa propõe modificar geneticamente o próprio animal para eliminar uma das principais proteínas associadas às alergias.

Pesquisadores da empresa norte-americana Kindred Companion Sciences desenvolveram dois cães geneticamente modificados que não produzem a proteína Can f 1, considerada um dos principais alérgenos associados aos cães. O trabalho foi publicado em agosto de 2026 no periódico científico The CRISPR Journal e utilizou a técnica de edição genética CRISPR-Cas9.

As duas cadelas, chamadas Alfie e Bailey, são da raça beagle e nasceram em setembro de 2024. Para produzi-las, os pesquisadores editaram células de cães em laboratório, desativando uma região do gene responsável pela produção da Can f 1. As células modificadas foram posteriormente utilizadas na produção dos embriões por meio de transferência nuclear de células somáticas.

Segundo o estudo, análises de saliva e de amostras de pelo e caspa das duas cadelas não detectaram a proteína Can f 1. Os pesquisadores também realizaram um teste cutâneo em uma pessoa sensibilizada ao alérgeno. Enquanto extratos de cães não modificados provocaram reação, os extratos dos dois animais geneticamente modificados não produziram uma resposta detectável.

O que significa ser um cão hipoalergênico?

Apesar de a expressão ser bastante utilizada no mercado pet, não existe atualmente uma raça de cachorro comprovadamente livre de alérgenos.

Um estudo publicado no Journal of Allergy and Clinical Immunology analisou cães considerados “hipoalergênicos”, como poodles, labradoodles, cães de água espanhóis e airedale terriers. Os pesquisadores compararam os níveis de Can f 1 presentes nos pelos e no ambiente desses animais com os encontrados em raças não classificadas dessa maneira.

Os resultados não sustentam a ideia de que determinadas raças sejam naturalmente hipoalergênicas. Na pesquisa, inclusive, os chamados cães hipoalergênicos apresentaram concentrações de Can f 1 nos pelos e na pelagem superiores às observadas nos cães utilizados como controle.

A explicação está no fato de que a alergia não é provocada simplesmente pelo pelo do animal. Proteínas presentes na saliva, na pele, na caspa e em outras secreções podem se espalhar pelo ambiente. A pelagem funciona, em muitos casos, como um veículo para esses alérgenos.

Por isso, cães que soltam menos pelo podem distribuir menos partículas pelo ambiente, mas isso não significa que sejam incapazes de provocar uma reação alérgica.

A aposta na edição genética

É justamente nesse ponto que o trabalho com Alfie e Bailey se diferencia das estratégias tradicionais. A Can f 1 pertence à família das lipocalinas e é encontrada principalmente na saliva dos cães. A proteína pode chegar ao pelo e à caspa durante os hábitos de higiene do animal, contribuindo para a exposição das pessoas alérgicas.

A pesquisa indica que a eliminação da Can f 1 foi possível sem alterações aparentes no desenvolvimento das duas cadelas. Os pesquisadores também realizaram análises genéticas para investigar possíveis alterações fora da região pretendida e não identificaram nada relevante nos principais locais avaliados ou grandes mudanças estruturais no genoma.

Apesar dos resultados iniciais, os próprios pesquisadores tratam o trabalho como uma prova de conceito. Isso acontece porque a Can f 1 é apenas uma das proteínas capazes de desencadear respostas alérgicas. Uma revisão recente sobre alergias a animais de companhia aponta a existência de diversos alérgenos caninos, incluindo Can f 1, Can f 2, Can f 3, Can f 4, Can f 5 e Can f 6. Pessoas diferentes também podem apresentar sensibilização a proteínas diferentes.

Além disso, o teste de resposta alérgica realizado no novo estudo envolveu apenas uma pessoa. Ou seja, o resultado demonstra que a ausência da Can f 1 pode reduzir a resposta alérgica em um indivíduo sensibilizado, mas ainda não permite concluir que esses cães sejam seguros para todas as pessoas com alergia a cães.

Esse será um dos principais desafios das próximas etapas da pesquisa: avaliar os animais por períodos mais longos, acompanhar sua saúde ao longo da vida e testar a resposta de um número maior de pessoas com diferentes perfis de alergia.

E o que muda para o mercado pet?

A pesquisa abre uma possibilidade que vai além da criação de uma nova raça ou linhagem com características específicas de aparência. A edição genética poderia, em tese, permitir o desenvolvimento de animais de companhia com características biológicas planejadas para reduzir determinados riscos ou limitações à convivência com humanos.

A proposta, entretanto, ainda está distante de chegar ao consumidor. Além da necessidade de comprovar a segurança e a eficácia da técnica, a aplicação comercial da edição genética em animais de companhia envolve questões regulatórias, de bem-estar animal e também éticas.

Enquanto isso, medidas mais tradicionais continuam sendo utilizadas para reduzir a exposição aos alérgenos. Um estudo publicado em 2025, por exemplo, observou que a lavagem de cães em ambiente hospitalar reduziu significativamente as concentrações de Can f 1 e Can f 4 presentes na pelagem, com níveis permanecendo mais baixos por alguns dias.

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Por Caroline Pasternack, em Notícias

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